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NOTÍCIAS
 
23/11/2008 - 04:13h
Tráfico de Animais Silvestres

Introdução

O tráfico de animais silvestres é o terceiro maior negócio ilegal do mundo, somente atrás do tráfico de drogas e de armas. Seria leviano e utópico tentarmos estabelecer medidas que acabassem com o tráfico, porque ele jamais vai acabar, mas pode ser drasticamente reduzido se houvessem programas de conscientização da população e de inibição severa das atividades dos traficantes. O que tentarei demonstrar aqui é como o tráfico ocorre, porque ocorre, apresentar alternativas e soluções que minimizem a retirada de animais da natureza, ou o seu impacto na conservação da vida silvestre.

Porque retirar animais silvestres da natureza

O homem vem desde a pré-história caçando e aprisionando animais para utilizá-los nos mais diversos fins. A perda de biodiversidade advinda deste processo é dramática. É indispensável à cultura humana a retirada de animais silvestres da natureza, algumas populações caçam para sobreviver, outras caçam para se divertir, vender os animais, se livrar deles, extrair extratos ou ainda para utilizá-los como animais de estimação. O homem é um caçador por excelência, por isso pesca e caça mesmo por diversão, tentar mudar isso é muito complicado pois vai contra a natureza humana. Se pensarmos do ponto de vista ecológico, a caça é uma atividade normal que não tem nada de danoso quando praticada por animais ou pelo homem, desde que seja controlada e que se permita que as populações exploradas se recomponham como acontece na natureza. O homem também conseguiu destruir populações inteiras de animais caçando-os para servirem de ornamento ou animais de estimação, sem falar no tráfico de peles, muito popular até tempos passados e que foi responsável pelo flagelo de muitas espécies. Para todos estes aspectos da retirada de animais, existe uma alternativa racional comumente não explorada para resolver o problema do tráfico.

Entendendo o porque do tráfico e seu real dano ao meio ambiente.

Muito se fala sobre o tráfico de animais silvestres e sua captura como sendo algo abominável e desumano, que deve ser proibido a qualquer custo. Essa opinião leiga reflete a ignorância generalizada dos aspectos ecológicos e culturais envolvidos nesta prática. Na verdade, o tráfico só passa a ser danoso quando a retirada supera a capacidade da população de se recompor e começa a ameaçar sua conservação. Outro fator desfavorável, reside no fato de que os animais mais procurados, e os grandes celeiros de animais silvestres do mundo, estão em países pobres, em que a população vê nos animais, muitas vezes, sua única alternativa de "sobrevivência". O Brasil se encontra neste grupo. Os países ricos por sua vez, têm uma parcela de culpa até mesmo maior que os subdesenvolvidos, pois são eles os principais compradores de muitos dos animais e financiadores de grandes caçadas. Sem demanda, não há tráfico, e em qualquer forma de tráfico o comprador deve ser igualmente culpado pelo ciclo vicioso que ele financia. Um grande problema dos países subdesenvolvidos, é o fato de não haver uma legislação ambiental eficaz, assim, os traficantes e atravessadores lucram com o tráfico e a nação não ganha nada em troca. Se os governos legalizassem áreas de caça, e a coleta racional de animais, iriam gerar riquezas que nunca se esgotariam e que dariam lucros diretos, reversíveis ao país. Neste caso, a natureza seria preservada em função do seu papel econômico, e então teriam interesse em fiscaliza-la.

Alternativas para o tráfico de animais

Devemos ler este capítulo de forma delicada, pois os animais são muito diferentes entre si, ocorrem em lugares do planeta bem diferentes e são caçados também por razões distintas. Tentarei então dividir o tráfico em grupos, a serem analisados separadamente. A caça desportiva ilegal: Esta modalidade tem fácil resolução, basta apenas que se legalize a atividade, se estabeleçam períodos e se vendam licenças para os caçadores, além é claro de um estudo que permita saber a população de desfrute de uma determinada área. Nos EUA por exemplo é assim que acontece, e os próprios caçadores que compraram as licenças tem interesse em fiscalizar os territórios para que os animais não escasseiem e o programa funcione. O dinheiro das licenças serve para financiar a fiscalização e o andamento do programa.

A caça para obtenção de estratos e subprodutos dos animais: Este caso é mais complexo e envolve aspectos culturais muito arraigados na mente das pessoas. Alguns dos animais deste grupo podem ser criados em cativeiro sem maiores problemas, o que torna sua captura inaceitável. Outros porém não são tão fáceis ou até impossíveis de serem criados com a atual tecnologia. Nestes casos deve se desestimular a caça e desmistificar possíveis lendas a respeito das poções e elixires oriundos de extratos animais; o que também é muito difícil de ser feito. Se comprovadamente for necessária ou conveniente a caça destes animais, cabe ao governo estabelecer regras que disciplinem e definam a cota de captura, como é feito em muitos países, sem prejuízo algum ao meio ambiente.

A caça para sobrevivência: Este é um problema social que não deveria ser encarado como tráfico mas mesmo assim é ilegal. A solução é óbvia, se um indivíduo caça para comer devemos lhe proporcionar alternativas de obter alimento. Mas, se o indivíduo passa a traficar animais para vender e alega não ter outra forma de sobreviver deve ser punido pela legislação local com todo o seu vigor, pois ninguém ganha a vida de forma digna caçando e vendendo animais, porque o dinheiro obtido com isso só dá para sua subsistência. O tráfico para venda de animais exóticos: Este é sem dúvida o mais lucrativo e complexo esquema de tráfico, tão sofisticado quanto o tráfico de drogas. É inadmissível nos dias de hoje que se continue traficando animais para serem vendidos para colecionadores e também para quem não tem a menor idéia de como se cuidar de um animal silvestre. Existem já alternativas à este tipo de demanda, como a compra em criatórios legalizados ou a elaboração de projetos ou criações particulares que podem ser autorizadas a retirar animais da natureza para formação de plantel inicial. É claro que isto não resolve o problema de quem quer ter um animal, mas já é um avanço, embora muitas pessoas prefiram recorrer ao tráfico sabendo que ele é ilegal. Nos casos em que há necessidade de se renovar o sangue de populações mantidas em cativeiro, os países deveriam autorizar a captura destes animais de forma legal, mediante venda e geração de recursos. A simples proibição da captura não impede de maneira nenhuma o tráfico, os animais serão conseguidos pelos colecionadores de uma maneira ou de outra. Somente nos casos de espécie raríssima e de distribuição geográfica muito limitada, é que a proibição total de qualquer forma de captura pode ser aceita como lógica.

O tráfico de peles é também um bom exemplo de como a moda e culturas de uma época podem influir na conservação do meio ambiente, o que outrora era símbolo de status e beleza, hoje é inaceitável e politicamente incorreto. Esta mudança de mentalidade e o aparecimento de formas de criação de animais exóticos para obtenção de peles foram definitivos para conservação de algumas espécies.

A criação de animais em cativeiro como forma de preservação

Criar animais silvestres para atender as necessidades de demanda da nossa sociedade é uma tarefa muito gratificante, rendosa e só agora tem recebido a atenção que merece. Este método de combate é muito eficaz contra o tráfico em muitos casos, mas está longe de resolver o problema, embora ajude a atenuá-lo.

Quando o homem se deu conta que a destruição da natureza tinha chegado a níveis tão alarmantes que estavam comprometendo a existência de diversas formas de vida, este passou a se preocupar em criar certos tipos de animais em cativeiro, pois era inviável continuar a retirá-los da natureza, infelizmente era tarde para muitas espécies, que foram extintas pela ação antrópica. No Brasil temos como exemplo a Anodorrhyncus glaucos, que veio a desaparecer vítima de várias pressões, mas que poderiam ter sido salvas se na época houvesse algum tipo de preocupação ecológica. Assim sucedeu com as aves canoras da nossa fauna como o curió, o bicudo, canário da terra e muitos outros, que tem enormes populações em cativeiro, mesmo tendo sido extintas de diversas áreas em função do tráfico ao longo dos anos. Aves como os gansos do Havaí, alguns papagaios e outros, tiveram suas populações dramaticamente reduzidas pela espoliação do tráfico e só existem até hoje graças a programas de criação em cativeiro.

O tráfico é uma rede poderosa, um problema até hoje sem solução em muitos dos casos mas que tende a diminuir com a evolução das sociedades, mas que nunca vai acabar, embora possa ser reduzido a níveis insignificantes. Não é tão difícil quanto parece reduzir o tráfico de animais silvestres, o problema é que só se combate o tráfico em poucas das suas muitas etapas, o que é muito fácil de ser contornado pelos traficantes.

Aspectos legais envolvendo o tráfico de animais silvestres

No Brasil a captura, aprisionamento e venda de animais silvestres é crime desde 1967, e todos sabemos disto. Mas não se pensou em criar alternativas a retirada destes animais na época da lei. O que sucedeu é que os animais pararam de ser vendidos livremente nas lojas como mercadorias comuns, mas as feiras e a exportação continuam até os dias de hoje, sem que tenhamos recebido um tostão de impostos ou indenização por estes séculos de capturas de nossos animais. Nos Estados Unidos e Europa, milhares de pessoas possuem e vivem de criar animais contrabandeados do Brasil e de outras partes do mundo. Se houvesse uma política de exploração racional destes recursos estes não se esgotariam, e ainda gerariam divisas aos países pobres.

Obviamente, proibir o comércio dos animais não ajuda muito na sua conservação, e quanto a isso o Brasil está muitíssimo atrasado, pois só na última década o governo através de seu órgão de controle dos recursos naturais, o IBAMA, passou a regularizar e permitir sob determinadas condições a criação comercial de animais e sua manutenção para outros fins. A evolução deste tipo de legislação no Brasil tem ocorrido muito lentamente, entretanto países como os Estados Unidos e Austrália não são mais avançados ao contrário do que poderia se pensar. Os Estados Unidos embora possuam cultura de caça legalizada, proíbe qualquer forma de criação e captura de animais em estado silvestre para servirem de xerimbabo, em contrapartida, são grandes contrabandistas e agem no mundo todo. Já a Austrália proíbe a exportação de animais silvestres, mas dá direito aos fazendeiros de os matarem, estejam eles ameaçados ou não de extinção, se estiverem danificando suas culturas.

Depois disto, podemos ter uma melhor compreensão das raízes do tráfico de animais, e perceber que os maiores culpados são os governos que não tem política ambiental, e não fazem nada quanto à questão do meio ambiente e de nossas riquezas.

O destino dos animais já apanhados

Atualmente, a única coisa feita com os animais apreendidos do tráfico, é entregá-los aos zoológicos e alguns poucos criadores autorizados, quando não são soltos aleatoriamente pela polícia. Ainda não se criou, não se sabe porque, um centro de triagem que recupere os animais apreendidos, e os encaminhe à adoção, assim como ocorre com cães e gatos de rua. Nos países ditos de primeiro mundo, esta prática já é bem rotineira, e muitas vezes parte da iniciativa particular de alguns cidadãos. Mas no Brasil, a quase totalidade dos animais apreendidos morre.
A esta altura, já deveríamos estar nos perguntando porque não reintroduzir os animais na natureza. É bem óbvia esta sugestão, mas não funciona. Para que um animal seja reintroduzido, é preciso que se gaste milhares de Reais, sem garantia nenhuma de sucesso. Este dinheiro seria muito mais útil em programas de conservação e triagem dos animais, já que depois de capturados a maioria dos animais não suporta o retorno à vida em liberdade. Assim sendo, animais apreendidos não devem ser reintroduzidos, no máximo soltos se houver condições para isso, o que é totalmente diferente de reintrodução.

por: Francisco Freixinho Junior


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